Saúde

Jogos que avaliam desempenho motor contribuem para diagnóstico do autismo
Método objetivo e quantificável - com captação de sutilezas do movimento - pode auxiliar na precisão dos diagnósticos
Por Livia Borges - 27/06/2026


Jogos permitem coleta precisa de dados sobre coordenação motora, equilíbrio e padrões de movimento, além de apresentarem potencial terapêutico, ajudando a desenvolver habilidades motoras e emocionais em ambiente estimulante – Foto: EEFE


Atualmente, o diagnóstico do Transtorno do Espectro Autista (TEA) baseia-se na observação direta do paciente, entrevistas com familiares e testes neuropsicológicos. Como toda metodologia fortemente fundamentada em avaliações comportamentais, estes processos podem apresentar um caráter subjetivo. Por isso, especialistas buscam novas ferramentas que complementem a prática clínica com dados mais objetivos, precisos e quantificáveis.

Nesse sentido, uma pesquisadora Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da USP avaliou a utilização de um jogo interativo com captação de movimento para analisar padrões motores. O objetivo era verificar se a tecnologia seria capaz de distinguir pessoas com TEA de pessoas neurotípicas, por meio de parâmetros sensório-motores. 

O estudo, de Fernanda Orosco Guilherme, com orientação do professor Jorge Alberto de Oliveira, concluiu que o jogo foi eficaz ao identificar o tempo de resposta como um padrão motor relevante. Em comparação com o grupo neurotípico, pessoas com autismo apresentaram respostas significativamente mais lentas em todos os momentos da tarefa.

O achado evidencia o potencial dessa tecnologia como ferramenta complementar às avaliações tradicionais, proporcionando uma metodologia mais engajadora e capaz de captar sutilezas motoras que conferem maior precisão e rigor científico ao processo diagnóstico.

“Jogos sérios”

Os chamados serious games (“jogos sérios”) são jogos, tecnologias e simuladores desenvolvidos com o propósito de treinar, educar, conscientizar ou até reabilitar pessoas, indo além do objetivo recreativo. Nesse contexto, tais ambientes virtuais destacam-se como ferramentas inovadoras e confiáveis para a análise comportamental. Quando aplicados ao TEA, permitem a coleta precisa de dados sobre coordenação motora, equilíbrio, estereotipias e padrões atípicos de movimento, reduzindo a subjetividade das avaliações clínicas tradicionais.

Além disso, esses jogos apresentam um potencial terapêutico relevante, ajudando pessoas com autismo no desenvolvimento de habilidades motoras, físicas, sociais, comunicativas e emocionais, em um ambiente lúdico e estimulante. Em parceria com a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) do município de Tatuí (SP), foram recrutadas 38 pessoas com diagnóstico clínico de autismo para o grupo experimental, de ambos os sexos e com idade entre 5 e 25 anos. Para compor o grupo controle, mais 38 pessoas com desenvolvimento típico foram selecionadas para corresponder em gênero e faixa etária com o outro grupo.

A ferramenta utilizada foi o jogo Bubbles, no qual o participante deve usar seus braços para interceptar bolhas que surgem aleatoriamente na tela do computador, variando em direção, tamanho e tempo de permanência. Esse protocolo experimental foi realizado em uma única sessão, composta de três blocos de intervenção, sendo cada um deles constituído por três rodadas de um minuto.

Durante a tarefa, uma câmera capturou os movimentos em tempo real para mensurar o desempenho dos participantes e possibilitar a posterior comparação entre os grupos. Os indicadores analisados foram o tempo de acerto, a distância percorrida pelo alvo até a interceptação e a porcentagem de acertos.

No jogo Bubbles, o participante usa os braços para interceptar bolhas que surgem na tela do computador, variando em direção, tamanho e tempo de permanência; câmera captura movimentos em tempo real para medir desempenho – Foto: Retirada da dissertação

Ferramenta promissora

Os resultados mostraram que o grupo experimental apresentou menor precisão de acertos e menor eficiência do trajeto motor até o alvo. O indicador mais expressivo, todavia, foi o tempo de resposta: os indivíduos com autismo foram significativamente mais lentos que o grupo controle durante toda a execução da tarefa.

Dessa forma, a pesquisa evidencia que o jogo foi capaz de captar e mensurar padrões sensório-motores que caracterizam o autismo, gerando um conjunto de informações detalhadas e quantificáveis. A capacidade de processar múltiplos dados e de coletar sutilezas do desempenho motor aponta os “jogos sérios” como ferramentas promissoras para complementar e modernizar os métodos diagnósticos.

Para a pesquisadora, além da precisão diagnóstica, a tecnologia oferece baixo custo e alta atratividade para pessoas com autismo, servindo também como um recurso para acompanhar a evolução terapêutica dos pacientes. “No futuro, esperamos que os jogos sérios se tornem uma ferramenta cada vez mais acessível e amplamente utilizada nos serviços de saúde pública”, completa Fernanda Guilherme.

A dissertação, intitulada Caracterização do Desempenho Motor em Indivíduos com Transtorno do Espectro Autista Utilizando um Jogo de Interceptação em Realidade Virtual Não Imersiva”, está disponível no Banco de Teses da USP. O jogo Bubbles pode ser acessado gratuitamente por meio da plataforma Open Heal, que hospeda diversos jogos que auxiliam no diagnóstico, acompanhamento, tratamento e reabilitação de várias deficiências e condições de saúde.

 

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